São Malaquias (em irlandês antigo Malachy Máel Máedóc Ua Morgair; em irlandês moderno Maelmhaedhoc O’Morgan) nasceu em 1094, na Irlanda, em um período marcado por reformas e tensões internas na Igreja local. Ainda jovem, destacou-se pela vida austera, pela disciplina monástica e pela capacidade de restaurar a ordem eclesiástica em meio a conflitos. Tornou-se abade de Armagh e, posteriormente, arcebispo, desempenhando papel decisivo na reorganização espiritual e disciplinar da Igreja irlandesa.
Durante sua primeira viagem a Roma, em 1139, São Malaquias teria recebido uma série de visões que mais tarde seriam associadas às chamadas Profecias dos Papas. Embora a autenticidade e a origem dessas profecias tenham sido debatidas ao longo dos séculos, a tradição atribui a Malaquias a formulação de breves lemas latinos que descreveriam simbolicamente cada pontífice até o fim dos tempos. A Igreja nunca canonizou oficialmente essas profecias como revelação, mas também nunca as condenou, tratando-as como elemento da piedade popular e da história espiritual da Idade Média.
São Malaquias foi canonizado em 1199 pelo Papa Clemente III, tornando-se o primeiro santo irlandês oficialmente canonizado por um papa. Seu maior biógrafo foi São Bernardo de Claraval, que conviveu com ele e registrou diversos episódios de sua vida. Entre esses relatos, Bernardo afirma que Malaquias lhe revelou a data exata de sua morte: 2 de novembro de 1148, o que se cumpriu fielmente.
Além disso, São Malaquias teria profetizado que a Irlanda sofreria opressão por parte da Inglaterra, mas que, uma vez liberta, desempenharia papel importante na restauração da fé naquele país — uma visão que, séculos depois, muitos interpretariam à luz dos movimentos de evangelização irlandesa no mundo anglófono.
É nesse ponto que surge um dos temas mais debatidos ligados ao nome de São Malaquias: as chamadas ‘Profecias dos Papas’.
PROFETAS E “PROFETAS”: E AS PROFECIAS DE SÃO MALAQUIAS?
Ao longo da história da Igreja, sempre surgiram textos proféticos, visões e listas enigmáticas que, em momentos de crise ou expectativa, voltam a ocupar o imaginário popular. As chamadas “Profecias de São Malaquias” são um desses casos. Elas reaparecem com força especialmente em períodos de conclave, quando muitos procuram antecipar o nome do próximo Papa por meios extraordinários. Mas o que realmente podemos afirmar sobre esse documento?
Do ponto de vista da crítica histórica séria, as profecias atribuídas a São Malaquias não possuem autoridade. Embora o santo tenha vivido entre 1094 e 1148, nada — absolutamente nada — nos séculos XII, XIII, XIV ou XV menciona qualquer lista profética de papas. O silêncio é total.
A primeira aparição conhecida dessas supostas profecias ocorre apenas em 1595, quando o monge beneditino Arnold de Wyon as publica em sua obra Lignum Vitae. Pesquisas posteriores indicam que o texto provavelmente foi composto poucos anos antes, por volta de 1590, durante o conclave que escolheria o sucessor do Papa Urbano VII.
Naquele conclave, um dos cardeais mais cotados era Girolamo Simoncelli, natural de Orvieto. Seus apoiadores teriam forjado uma lista “profética” de 111 papas, na qual o pontífice seguinte a Urbano VII aparecia sob o lema “De antiquitate urbis” — expressão que poderia ser interpretada como referência à cidade de Orvieto (Urbs Vetus, “cidade antiga”). A intenção era clara: influenciar a eleição.
A tentativa, porém, fracassou. O eleito foi o cardeal Niccolò Sfondrati, que tomou o nome de Gregório XIV. A fraude, portanto, não apenas não atingiu seu objetivo, como deixou rastros suficientes para que historiadores identificassem sua origem humana e tardia.
Esses dados são mais do que suficientes para dissipar qualquer dúvida sobre a falta de autenticidade das chamadas “profecias de São Malaquias”.
Ainda assim, o documento volta e meia retorna ao debate público. Durante o conclave de 1978, por exemplo, a imprensa secular o explorou intensamente, tentando prever o nome do futuro Papa com base nos lemas latinos. Como sempre, as previsões falharam — lembrando ao mundo que a Igreja não é guiada por cálculos humanos, mas pela ação do Espírito Santo.
Além disso, algumas interpretações populares chegaram a sugerir que as profecias indicariam o fim do mundo por volta do ano 2000, o que naturalmente não se cumpriu. Por isso, antes de analisar o conteúdo desses lemas, é necessário compreender como e por que esse documento surgiu, e qual é o seu verdadeiro peso diante da tradição e do magistério da Igreja.
O CONTEÚDO E A AVALIAÇÃO DAS CHAMADAS “PROFECIAS DE SÃO MALAQUIAS”
A figura de São Malaquias de Armagh — não confundir com o profeta bíblico de mesmo nome — sempre despertou interesse pela sua vida austera, sua obra reformadora e sua profunda espiritualidade.
É a esse santo que, séculos mais tarde, se atribuiu a chamada “Profecia dos Papas”, um conjunto de 111 breves lemas latinos que supostamente descreveriam simbolicamente cada pontífice desde Celestino II (1143–1144) até um último Papa denominado Petrus Romanus, sob cujo pontificado ocorreria o fim do mundo. A tradição popular afirma que Malaquias teria recebido essas visões durante sua viagem a Roma em 1139.
Contudo, apesar dessa atribuição medieval, o documento não aparece em nenhuma fonte dos séculos XII, XIII, XIV ou XV. Ele surge pela primeira vez apenas em 1595, quando o monge beneditino Arnold de Wyon o publica em sua obra Lignum Vitae. Essa ausência total de referências anteriores já levanta sérias dúvidas sobre sua autenticidade.
Ao publicar o texto, Wyon incluiu também um comentário do dominicano espanhol Alonso Ciacconio, que aplicou os lemas aos papas desde Celestino II até Urbano VII (falecido em 1590). De fato, muitos desses lemas parecem ajustar-se de modo engenhoso — às vezes até convincente — aos pontífices desse período, mencionando brasões, cargos anteriores, cidades de origem ou características pessoais.
Alguns exemplos frequentemente citados:
Avis Ostiensis (“Ave de Óstia”) — aplicado a Gregório IX, cardeal-bispo de Óstia, cujo brasão trazia uma águia.
De parvo homine (“Do pequeno homem”) — associado a Pio III, da família Piccolomini (“pequeno homem”).
Jerusalem Campaniae (“Jerusalém da Campanha”) — referente a Urbano IV, natural da região da Campanha e antigo Patriarca de Jerusalém.
Essas coincidências, porém, só se verificam até 1590. A partir daí, os lemas tornam-se vagos, genéricos e aplicáveis a praticamente qualquer pontífice: Vir Religiosus (“Varão religioso”), Ignis ardens (“Fogo ardente”), Fides intrepida (“Fé intrépida”). Essa mudança brusca de estilo é um dos indícios mais fortes de que o documento foi composto no final do século XVI, e não no século XII.
Diversos estudiosos apontam que a provável origem da lista está no conclave de 1590, quando um dos candidatos mais cotados era o cardeal Girolamo Simoncelli, natural de Orvieto. Seus apoiadores teriam forjado uma lista “profética” para favorecer sua eleição, incluindo o lema “De antiquitate urbis” (“Da antiguidade da cidade”), facilmente interpretável como referência a Orvieto (Urbs Vetus). A tentativa, porém, fracassou: o eleito foi o cardeal Niccolò Sfondrati, que tomou o nome de Gregório XIV.
Além do argumento histórico, há outros problemas sérios:
A lista inclui antipapas, algo incompatível com qualquer inspiração divina.
A profecia parece insinuar a data do fim do mundo, contrariando explicitamente o ensinamento de Cristo (Mc 13,32; At 1,7).
Muitas interpretações posteriores baseiam-se em coincidências superficiais, jogos de palavras ou associações arbitrárias.
A ausência total de referências durante 450 anos é praticamente impossível de conciliar com a autenticidade medieval do texto.
O primeiro grande estudioso a desmontar a suposta profecia foi o jesuíta Pe. Claude-François Ménestrier, em 1689, demonstrando que o documento não resiste à crítica histórica e teológica. Desde então, a posição dos especialistas permanece a mesma: trata-se de uma falsificação tardia, provavelmente motivada por interesses eleitorais no conclave de 1590.
Apesar disso, a lista volta e meia reaparece em momentos de conclave ou de agitação mundial, alimentando especulações sobre o “último Papa” ou sobre o fim dos tempos. No entanto, tais conjecturas carecem de fundamento e desviam o olhar do essencial: a Igreja não é guiada por cálculos humanos, mas pela ação do Espírito Santo, e o futuro não se lê em enigmas, mas na fidelidade ao Evangelho.
Diante de tudo isso, a conclusão é clara: as chamadas “Profecias de São Malaquias” não possuem valor histórico, teológico ou profético. Podem ser estudadas como curiosidade literária do século XVI, mas não como instrumento de interpretação da história da Igreja ou dos tempos finais.

