terça-feira, 26 de março de 2024

Código Musical da Igreja (Motu Proprio de Pio X)

MOTU PROPRIO - TRA LE SOLLECITUDINI  DO SUMO PONTÍFICE
PIO X
SOBRE LA MÚSICA SAGRADA (SOBRE A MÚSICA SAGRADA)
   
Entre os cuidados  próprios do ofício pastoral, não somente desta Cátedra, que por inescrutável disposição da Providência, ainda  que indigno, ocupamos,  como também de toda Igreja particular, sem dúvida um dos  principais é o de manter e procurar o decoro na casa do Senhor,  onde se celebram os augustos mistérios da religião e  se junta o povo cristão a receber a graça dos sacramentos, assistir ao santo sacrifício do altar, adorar ao augustíssimo Sacramento do Corpo  do Senhor e unir-se à comum  oração da Igreja nos públicos e  solenes ofícios  da  liturgia. 
Nada, por conseguinte, deve  ocorrer  no templo que turbe,  nem sequer  diminua,  a piedade e  a devoção dos fiéis;  nada que dê fundado motivo de  desgosto ou escândalo;   nada, sobretudo, que diretamente ofenda o decoro  e a santidade dos sagrados ritos e, por este  motivo,  seja indigno da casa de oração e a majestade divina.  
Agora  não vamos falar um por  um dos abusos que podem ocorrer nesta matéria;  nossa  atenção se fixa  hoje somente em um dos mais gerais,  dos mais difíceis de erradicar, em um que talvez deva deplorar-se   ainda ali de todas as demais coisas são dignas de  maior louvor  pela beleza  e suntuosidade do templo, pela  assistência de grande número de eclesiásticos, pela  piedade e gravidade dos ministros  celebrantes:   tão grande é o abuso em  todo o concernente ao canto e à musica sagrada. 
E em verdade, seja pela natureza desta arte, flutuante e variável, ou pela sucessiva alteração do gosto e dos costumes no transcurso do tempo, ou pela influência que exerce  a arte profana e teatral no sagrado, ou pelo prazer que diretamente produz a música e que nem sempre pode-se conter facilmente dentro dos justos limites, ou, em última análise, pelos muitos prejuízos que nesta matéria insensivelmente penetram e logo tenazmente se arraigam  até no ânimo de pessoas autorizadas e piedosas. O feito é que se observa uma tendência pertinaz a apartá-la da reta norma, assinalado   pelo fim com que a arte foi admitida ao serviço do culto e expressada com bastante clareza nos cânones eclesiásticos, nos decretos dos  concílios gerais e providenciais e as repetidas resoluções das Sagradas  Congregações romanas  e dos Sumos Pontífices, nossos predecessores.
Com verdadeira satisfação da alma nos  é grato reconhecer o muito bem que nesta matéria se há conseguido durante os últimos decênios   em  nossa ilustre cidade de Roma e em diversas  igrejas de nossa pátria;  porque de modo particular em algumas nações, onde   homens ilustres, cheios  de zelo pelo culto divino, com a aprovação da Santa Sé e  a direção dos  bispos, se uniram em  florescentes sociedades e restabeleceram plenamente  a  honra da arte sagrada em quase todas as suas igrejas e capelas. Porém,  ainda  dista  muito este bem de ser geral,  e se consultarmos nossa   experiência pessoal e ouvirmos  as  muitíssimas  queixas de  que todas as  partes nos foram dirigidas pelo pouco tempo passado  desde que  servimos ao Senhor,  elevo  a nossa  humilde pessoa à suma dignidade do apostolado romano, cremos  que nosso  primeiro dever é levantar a  voz  sem mais adiamentos na reprovação e condenação de  quanto as solenidades do culto e dos ofícios sagrados  resulte  desacordo com a  reta norma  indicada.  
Sendo, em verdade, nosso  vivíssimo  desejo que o verdadeiro espírito  cristão volte a florescer num todo e  que  em  todos os fiéis se mantenha, o  primeiro  é  promover  a  santidade  e dignidade do templo, de onde  os fiéis  se  juntam precisamente  para adquirir esse  espírito  em  seu primeiro e  insubstituível manancial, que é a participação ativa  nos  sacrossantos mistérios e  na  pública e solene  oração da  Igreja.  
E em vão  será  esperar que para tal fim desça  copiosa sobre nós as bênção do céu, se nosso obséquio ao Altíssimo não sobe com odor de  suavidade;  antes bem,   põe-se  na mão do Senhor o  chicote  com que o Salvador do  mundo mandou embora do  templo a seus  indignos  profanadores.   
Por  este  motivo,  e para  que  de  hoje em diante ninguém alegue  a desculpa de não conhecer  claramente  sua obrigação  e tirar  toda  dúvida na interpretação de algumas coisas  que estão mandadas,  estimamos convenientemente  assinalar com brevidade  os princípios  que regulamentam a  música  sacra nas solenidades  do culto e sintetizar  ao mesmo tempo,  como em um quadro, as principais  prescrições  da Igreja contra os abusos  mais  comuns que se cometem nesta matéria.  Por seu o  motu proprio  ciência  certa publicamos  nossa  Instrução, a qual, como se fosse  Código jurídico da música sagrada, queremos com toda  a  plenitude  de nossa  Autoridade Apostólica se  reconheça  força de lei, impondo a  todos por estas  letras de nossa mão a  mais escrupulosa obediência.  
 
INSTRUÇÃO  ACERCA DA MÚSICA SAGRADA  
I. PRINCÍPIOS GERAIS  
1.  Como  parte  integrante  da  liturgia solene, a música sacra tende a  seu mesmo fim,  na qual  consiste  a glória de Deus  e  a  santificação e  edificação dos fiéis. A música  contribui  a  aumentar  o decoro e esplendor das  solenidades religiosas,  e  assim como seu ofício principal consiste em revestir-se  de adequadas melodias ao texto  litúrgico que  se propõe  à  consideração dos  fiéis, de igual maneira seu próprio fim  consiste  em  dar maior eficácia ao mesmo texto,   para que  por tal meio  se  excite mais  a  devoção dos fiéis e  se  preparem melhor para  receber os frutos da graça, próprios  da  celebração dos sagrados mistérios.  
2.  Por conseguinte,  a  música sacra deve ter  em  grau  eminente as  qualidades  próprias da  liturgia, convém saber:  a  santidade e  bondade das formas, de onde nasce espontâneo outro caráter seu:  a  universalidade.  
Deve  ser santa e, para tanto  excluir todo o  profano, e  não só em si mesma, senão da maneira  com que  a  interpretem os mesmos cantores. 
Deve  ter arte verdadeira, porque não é possível de  outro  modo que tenha sobre  o ânimo de  quem  a  ouve aquela  virtude que  se propõe  a Igreja a  admitir  em  sua liturgia  a  arte dos  sons.
Porém  também,  deve ser universal, no  sentido de que, ainda  que concedendo-se a toda  nação que admita  em suas composições religiosas aquelas formas particulares  que constituem o caráter específico de  sua própria  música, esta  deve  estar de tal modo  subordinada aos caracteres  gerais da  música sagrada,  que  nenhum fiel procedente de  outra nação,  experimente a ouví-la numa impressão que não seja boa.  

II. GÊNEROS  DA  MÚSICA SAGRADA
3.  Achando-se em  grau importante estas qualidades  no canto gregoriano, que é, por conseguinte, o canto próprio da Igreja romana, o único que a Igreja  herdou  dos  antigos  Padres, e que há custodiado zelosamente durante o curso dos  séculos em  seus códigos litúrgicos, e que em algumas  partes da  liturgia prescreve exclusivamente, e que estudos  recentíssimos  tem  restabelecido, felizmente  em  sua pureza e integridade.  
Por estes motivos, o canto gregoriano foi tido  sempre como acabado modelo de música religiosa, podendo formular-se com toda razão esta  lei geral:  Uma composição religiosa será mais  sagrada e  litúrgica quanto mais se aproxima do ar,  inspiração e sabor  da melodia gregoriana e será tanto menos  digna do templo quanto mais  se distanciar deste modelo soberano.   
Por este motivo,  o antigo canto gregoriano tradicional deverá  restabelecer-se amplamente nas solenidades do culto;  tendo-se por bem  sabido  que  nenhuma  função religiosa perderá nada de  sua solenidade ainda que não se  cante nela  outra  música que a gregoriana. 
Procure-se, especialmente, que o povo volte a  adquirir  o costume de  usar do canto gregoriano, para que os fiéis tomem de novo parte  mais ativa  no ofício litúrgico, como o faziam antigamente. 
4.  As  supracitadas  qualidades  encontram-se  também em grau elevado na   polifonia  clássica, especialmente no da escola romana, que o século XVI  legou  a meta da  perfeição com as obras de  Pedro Luiz da Palestrina e que logo continuou  produzindo composições de excelente bondade musical e litúrgica. 
A polifonia clássica se  aproxima bastante do canto gregoriano, supremo modelo de toda a música sagrada, e por esta razão mereceu ser  admitida, junto com aquele  canto,  nas funções mais solenes da Igreja, como são as que se celebram na capela  pontifícia.    
Por conseguinte, também esta música deverá restabelecer-se copiosamente nas solenidades religiosas, especialmente nas  basílicas  mais  insignes,  nas igrejas, catedrais e  nas dos seminários e institutos eclesiásticos, onde  não costumam  faltar os meios necessários. 
5. A Igreja  tem reconhecido e fomentado em todo o tempo os progressos  das  artes, admitindo no serviço do culto, quanto no curso dos séculos, a inteligência tem sabido encontrar o gênero  bom e belo, salvando sempre a lei  litúrgica; por conseguinte, a música mais moderna se  admite na Igreja, posto que conta  com composições de  tal bondade,  seriedade e  gravidade, que de nenhum modo  são indignas das  solenidades religiosas. 
Porém, como a  música  moderna é principalmente profana,  deverá cuidar-se  com maior esmero que as composições musicais de  estilo moderno  que se admitam  nas igrejas não contenham nenhuma coisa profana nem ofereçam  reminiscências de  motivos  teatrais, e não estejam compostas  tampouco em sua forma  externa imitando  a feitura das composições profanas. 
6. Entre os vários  gêneros  da  música moderna, o que menos  parece adequado às funções do  culto é  o teatral, que  durante  o século passado  esteve  muito em voga, singularmente na Itália. 
Por sua mesma  natureza, este gênero oferece  a  máxima  oposição ao canto  gregoriano e  a polifonia clássica,  e por fim,  às condições mais importantes de  toda  boa  música sagrada, além do que  a  estrutura, o ritmo e o chamado convencionalismo deste gênero se acomodam muito fracamente  às  exigências da verdadeira música sagrada.  
 
III. TEXTO LITÚRGICO
7.  A língua  própria  da  Igreja  romana  é a latina, pelo qual está proibido que nas solenidades litúrgicas  se cante coisa alguma em  língua vulgar, e muito mais  que se cantem em língua vulgar as  partes variáveis ou comuns  da  missa e  do ofício. 
8. Estando determinados para cada função litúrgica os textos que  hão de se por  na  música  e  a ordem em que se devem  cantar, não é licito alterar  esta ordem, nem  trocar  os textos prescritos por outros de  eleição privada, nem omití-los inteiramente ou em parte, como as rúbricas  não consentem que se supra com o órgão certos  versículos, senão que estes hão de recitar-se simplesmente no coro. Porém é permitido, conforme o costume da Igreja romana, cantar um motete ao Santíssimo Sacramento depois do Benedictus da missa solene, como se permite que,  logo ao cantar o ofertório próprio da missa,  possa cantar-se no tempo que fique até o prefacio  um breve motete com palavras aprovadas pela Igreja.
9.  O texto litúrgico há de se cantar como está nos livros,  sem alterações  ou pós posições de  palavras, sem repetições indevidas, sem separar  sílabas, e sempre com tal claridade que  possam entendê-lo os fiéis. 

IV. FORMA  EXTERNA  DAS COMPOSIÇÕES SAGRADAS
10.  Cada  uma  das partes da  missa e  do ofício devem conservar  musicalmente o conceito e a forma  que a tradição eclesiástica lhes tem dado e  se conservam bem expressadas no canto gregoriano;  diversa é, por conseguinte, a maneira de compor-se  um intróito, um gradual, uma antífona,  um salmo, um hino, um Gloria in excelsis, etc.  
11. Neste  particular observem-se as  normas  seguintes:
A) O Kyrie, Gloria, Credo, etc.,  da  missa devem conservar a unidade  de composição que corresponde a  seu texto.  Não é, portanto, lícito compô-los em peças  separadas, de maneira  que cada uma  delas  forme uma composição musical completa,   e tal que possa  separar-se das restantes e reajustar-se com outra.  
B) No ofício de  vésperas devem seguir-se  ordinariamente as disposições do Caeremoniale episcoporum, que  prescreve o canto gregoriano para a salmódia e  permite  a  música figurada nos versos  do  Gloria Patri e no himno. 
Porém, será lícito nas maiores solenidades  alternar, com o canto gregoriano do coro, o chamado de  contraponto,  ou com versos de  parecida  maneira convenientemente compostos.  
Também poderá  permitir-se  alguma  vez  que cada  um dos salmos se ponha  inteiramente na música, sempre que em sua composição se conserve  a  forma própria  da salmódia;   isto é,  sempre que  pareça que os cantores salmodiam  entre si,  já com  motivos  musicais novos, já com motivos  sacados do canto gregoriano,  ou imitados deste.   
Porém  ficam para sempre excluidos e  proibidos os salmos chamados de concerto.  
C) Nos hinos da  Igreja  conserve-se  a  forma  tradicional dos mesmos. Não é, por conseguinte, lícito  compor, por exemplo, o  Tantun Ergo de  maneira que a primeira  estrofe  tenha a forma  de  romanza, cavatina ou adagio,  e o Genitori  de Allegro. 
D) As  antífonas de  vésperas devem ser cantadas ordinariamente com a melodia gregoriana que lhes é própria; mas se em algum caso particular venham a  ser  cantadas com música, não deverão ter, de nenhum modo, nem a forma de melodia de concerto, nem a  amplitude de um motete ou de uma  cantata.

V. CANTORES
12. Exceto  as  melodias próprias  do celebrante  e dos ministros, as quais  hão de  se cantar sempre com música gregoriana,  sem nenhum acompanhamento de  órgão, tudo o mais do  canto litúrgico é próprio do  coro de levitas;  de maneira que os  cantores da igreja,  ainda  que quando  sendo seculares, fazem propriamente o ofício de  coro religioso. 
Por conseguinte, a  música  que for executada deve, quando menos em  sua máxima  parte, conservar o caráter de  música de coro. 
Com isto não se  entende excluir absolutamente os solos;  mas  estes  não devem predominar de  tal sorte que absorvam a  maior  parte do  texto litúrgico,  senão que devem ter o caráter de uma simples frase melódica e estar intimamente ligado ao resto de  uma composição coral. 
13.  Do mesmo princípio se deduz-se  que os cantores desempenham na Igreja  um ofício litúrgico;  pelo qual  as mulheres, que são incapazes de desempenhar tal ofício, não podem ser admitidas a formar parte do coro ou a capela  musical.  E se querem  ter vozes  agudas de tríplices e contraltos, deverão ser crianças, segundo uso antiquíssimo  da Igreja. 
14. Por último, não se admitam nas  capelas de  música senão homens de conhecida  piedade e probidade de  vida, que  com sua modesta e religiosa atitude de vida durante as solenidades litúrgicas se  mostrem dignos do santo ofício que desempenham.  Será, além disso, conveniente que,  enquanto cantam na Igreja, os músicos vistam  hábito talar e sobrepeliz,  e que,  se o coro se  encontra muito à  vista do público,  se apresentem vestidos. 

VI. ÓRGANO E INSTRUMENTOS  
VI . ÓRGÃO E  INSTRUMENTOS
15.  Se bem ser a  música da Igreja  exclusivamente vocal,   não obstante,  também se  permite a música com acompanhamento de  órgão.  Em algum caso particular,  nos termos devidos e com os devidos  aconselhamentos, poderão assim mesmo admitir-se outros instrumentos;  mas não sem  licença especial do Ordinário, segundo prescrição do  Caeremoniale episcoporum.  
16.  Como o canto deve  dominar sempre, o órgão e  os demais  instrumentos  devem  sustentá-lo sensivelmente, e não oprimí-lo.  
17.  Não  está  permitido  antepor  ao  canto  largos  prelúdios ou interrompê-lo com peças de intermédio.
18.  No acompanhamento do  canto, nos prelúdios, intermédios e  demais  passagens  parecidas, o órgão deve  tocar-se  segundo a índole  do mesmo instrumento, e deve  participar de todas as qualidades da  música sagrada  recordadas  precedentemente.
19.  Está proibido nas igrejas o uso do piano, assim como de todos  os  instrumentos  fragorosos  ou ligeiros, como o tambor, o  chinesco,  os pratos e outros semelhantes.
20.  Está rigorosamente  proibido  que as chamadas  bandas de música toquem nas igrejas, e só em algum  caso especial,  suposto o consentimento do  Ordinário, será permitido admitir um número ajuizadamente escolhido,  pequeno e  proporcional ao ambiente, de instrumentos de  sopro, destinados  a  executar composições ou acompanhar o canto, com música escrita em estilo grave, conveniente e em todo parecida ao do órgão.  
21.  Nas  procissões que  saiam da  igreja, o Ordinário poderá permitir assistência das  bandas de música,  de tal forma que não executem composições profanas.  Seria de  apetecer  que em tais  ocasiões as ditas  músicas  se  limitassem a  acompanhar  algum  hino religioso, escrito em latim ou em língua vulgar, cantado pelos  cantores e  piedosas  confrarias  que  assistem à procissão.

VII. EXTENSÃO DA MÚSICA RELIGIOSA 
22.  Não é  lícito que por razão  do  canto  ou da música se  faça de  esperar  ao sacerdote  no altar mais tempo do que exige a liturgia.  Segundo as prescrições da Igreja, o  Sanctus  da  missa deve  terminar-se de cantar antes da elevação, apesar do qual,  neste ponto, até  o  celebrante deve  ter  que estar dependendo da  música. Conforme a  tradição gregoriana, o Gloria  e  o Credo devem ser relativamente breves. 
23.  Em geral, há  de  condenar-se  como abuso gravíssimo que, nas funções religiosas,  a liturgia caia em lugar secundário e  como ao  serviço da música, quando a  música forma parte da  liturgia e não é  senão sua humilde serva.  

VIII. MEIOS  PRINCIPAIS
24.  Para o pontual  cumprimento de quanto aqui fica disposto, nomeiem os bispos, se não os houver já nomeado,  comissões especiais de  pessoas verdadeiramente competentes em coisas  de  música sagrada, as quais,  na maneira  que julguem mais  oportuna,  se  encomende o encargo de vigiar quanto se refere a música  que se executa  nas igrejas.  Não cuidem  só  de  que a música seja  boa em si, senão  de que  responda  às  condições dos cantores e se boa a execução.  
25. Nos seminários de  cléricos e  nos institutos eclesiásticos se há de cultivar  com amor e diligência, conforme as  disposições do Tridentino,  o já  louvável  canto gregoriano tradicional, e nesta matéria sejam os superiores  generosos  de  estímulos e elogios com seus  jovens  súditos. Assim mesmo, promova-se com o clero, onde  seja  possível, a fundação  de uma Schola cantorum para a execução da polifonia sagrada e  da boa música litúrgica. 
26.  Nas  lições de liturgia, moral e direito canônico que se explicam aos  estudantes de teologia, não deixar de  tocar naqueles  pontos  que mais especialmente se referem aos princípios  fundamentais  e  as regras da música sagrada, e procure-se completar a doutrina com instruções especiais  acerca da estética da arte  religiosa, para que os cléricos não saiam  do seminário alheios destas noções  tão necessárias  à  plena cultura eclesiástica. 
27.  Ponha-se  cuidado em  restabelecer, pelo menos nas igrejas principais, as antigas Scholae cantorum,  como  já se  tem feito  com excelente fruto em  bom número de localidades. Não será  difícil ao  clero verdadeiramente zeloso estabelecer  tais  Scholae até nas igrejas de  menor importância e de  aldeia;  antes bem,  isso lhe proporcionará o  meio de  reunir em torno de si a crianças e  adultos, com vantagem para  si  e  edificação do povo. 
28.  Procure-se  sustentar e promover de  melhor  modo onde já existam as  escolas  superiores de música, sagrada, e  concorra-se a  fundá-las onde  ainda não existam, porque é muito  importante que da Igreja mesma provenha  a  instrução de seus  maestros, organistas e cantores, conforme  os  verdadeiros princípios  da arte sagrada.  

IX. CONCLUSÃO
29.  Por último, se recomenda  aos  maestros  de capela, cantores eclesiásticos, superiores de  seminários, de institutos eclesiásticos e de comunidades  religiosas, aos párocos e reitores de igrejas,  aos  cônegos de  colegiatas e  catedrais, e sobre  tudo aos  Ordinários diocesanos, que favoreçam com todo zelo estas prudentes reformas,  desde há muito  desejadas e  por todos unanimemente pedidas, para que  não caia no desprezo a  mesma  autoridade da Igreja,  que repetidamente as tem  proposto e  agora de novo as  inculca. 
Dado  em nosso Palácio apostólico do Vaticano na  festa  da virgem e mártir Santa Cecília, 22 de  novembro de  1903, primeiro  de nosso  pontificado. 

SÃO TITO, BISPO


Comemoração Litúrgica:  06 de fevereiro.
 

         Celebra-se hoje a festa de São Tito, dileto discípulo de São Paulo e companheiro do mesmo nas viagens apostólicas. Pagão de nascimento, jovem ainda, se converteu e recebeu o santo Batismo. Encarregado pelo Apóstolo de importantes missões, foi duas vezes a Corinto, uma vez a Jerusalém, para entregar a importância de uma coleta em favor dos cristãos. Em 64 ou 65 foi com o Apóstolo à ilha de Creta, e nomeado Bispo daquela região. Provavelmente, em tempo de inverno: 65 ou 66 visitou Paulo em Nicópolis; ainda uma vez quando este se achava preso em Roma; mais tarde na Dalmácia. Foi a ilha de Creta que recebeu do seu mestre uma carta, que figura entre os escritos canônicos do Novo Testamento. Sobre o resto de sua vida e sua morte nada sabemos. Segundo a tradição teria conservado a virgindade até a morte. Tito morreu de morte natural, na idade de 90 anos, em 105 mais ou menos. 
Na Igreja sua festa e celebrada em 25 de agosto.

sexta-feira, 22 de março de 2024

São Timóteo, Bispo e Mártir


Comemoração Litúrgica:  26 de janeiro.
Os termos elogiosos com que São Paulo enaltece as virtudes de seu discípulo Timóteo, são provas do alto valor do mesmo. Nas epístolas do Apóstolo das gentes lemos expressões como: meu diletíssimo filho, meu fiel colaborador, servo de Cristo, meu Irmão e Servo de Deus no Evangelho, que não procura a si, mas a Cristo, Nosso Senhor – todas referentes a Timóteo.
Timóteo nasceu em Listra, na Licaônia. O pai era pagão, casado com uma hebréia, de nome Eunice, mãe de Timóteo. Eunice abraçou a religião de Cristo, quando São Paulo esteve em Listra. De sua mãe Timóteo recebeu o espírito cristão. Na sua segunda chegada a Listra, São Paulo levou consigo o jovem Timóteo, na travessia pela Ásia Menor. Timóteo tinha então apenas 20 anos. Os dois Apóstolos passaram pela Macedônia, pregaram aos Tessalonicenses, aos Filipenses e aos Beroenses. Os judeus expulsaram a São Paulo e ficou Timóteo continuando a obra da pregação. Mais tarde o vemos em Atenas, para onde o mestre o tinha mandado. Uma cruel perseguição, que viera sobre os cristãos em Tessalônica, fez com que Timóteo para lá voltasse, para confortar e consolar os irmãos em Cristo. De Tessalônica se dirigiu a Corinto, onde novamente se encontrou com São Paulo. Coincide com esta época a composição da epístola de São Paulo aos Tessalonicenses. De Corinto continuaram a viagem e chegaram a Jerusalém e Éfeso. São Paulo mandou Timóteo e Erasto para Macedônia, com a ordem de arrecadar subsídios para os cristãos perseguidos em Jerusalém.
Havendo-se introduzido abusos na Igreja de Corinto, para lá voltou Timóteo, acompanhado de uma carta recomendatícia do mestre. (I Cor. 16, 10). Este o esperou na Ásia, para depois em sua companhia ir a Macedônia e Acáia. Voltando para a Palestina, o Apóstolo foi preso e passou dois anos na prisão. É provável que Timóteo tenha sido seu companheiro nesta nova provação. Paulo foi levado para Roma e Timóteo posto em liberdade. Quando Paulo voltou de Roma, Timóteo já era bispo, e nesta qualidade foi pelo mestre mandado para Éfeso, donde devia governar a Igreja da Ásia Menor.
Paulo achava-se na Macedônia, quando escreveu a I.ª epístola a Timóteo. Uma segunda foi escrita em Roma, em 65. Ambas as epístolas são documentos preciosíssimos, em que o grande Apóstolo revela a amizade que o ligava ao discípulo. Convida-o com muito empenho para que o visite em Roma e lhe dê a satisfação de vê-lo mais uma vez, antes de morrer; dá-lhe instruções úteis sobre o modo como se deve haver com os hereges; prediz novas heresias e suas conseqüências, (2 Tim. 31, 2).
Das epístolas de São Paulo deduzimos que Timóteo era muito mortificado. Sofrendo de fraqueza de estômago, o mestre aconselhava-o tomar de vez em quando um pouco de vinho.
São Timóteo é considerado primeiro Bispo de Éfeso, que lá se achava quando chegou São João Evangelista para assumir a direção das Igrejas da Ásia.
As atas do martírio de São Timóteo, que datam do quinto ou sexto século, dizem da sua morte o seguinte: No ano de 97, quando era imperador Nerva, os pagãos fizeram uma grande festa em homenagem aos deuses, e nesta ocasião organizaram um préstito, cometendo muitas indignidades. Timóteo, vendo esta abominação, pôs-se no meio dos idólatras e verberou-lhes energicamente o procedimento escandaloso. Esta franqueza apostólica provocou uma ira tal da parte dos pagãos, que se precipitaram contra ele e o mataram a pedradas e pauladas.
Reflexões:
O jejum era fiel e inseparável companheiro dos trabalhos apostólicos de São Timóteo. A Igreja impõe o jejum a seus filhos como uma lei de grave obrigação. Tantas porém, são as desculpas alegadas, que praticamente é um número reduzidíssimo de cristãos que a cumprem. O nosso tempo tem horror ao sacrifício. Quando então é um sacrifício imposto pela religião, qualquer motivo serve para muitos se lhe eximirem do cumprimento do mesmo. A praxe dos Santos é inteiramente diferente. Os Santos ligam muita importância às mortificações do corpo, privando-se voluntariamente de prazeres lícitos, para com maior facilidade se poderem afastar dos ilícitos. (São Gregório). Sem as mortificações da carne, será difícil, senão impossível, vencer e dominar as paixões. “Sinto em meu corpo uma outra lei, que contraria a lei do espírito”, confessa o próprio São Paulo. É o mesmo Apóstolo que diz: “Aqueles que pretendem pertencer a Cristo, devem crucificar a carne, com seus apetites”. (Gal. 5, 24). Se o Apóstolo São Paulo, se seu discípulo São Timóteo acharam necessário “castigar o corpo e reduzi-lo à servidão” (1. Cor. 9, 27), como podem então o jejum e a abstinência ser consideradas medidas exageradas de penitência, por aqueles que trazem constantemente no corpo a lei do pecado?
A Igreja não exige de seus filhos a execução de penitências que debilitem o organismo ou prejudiquem a saúde. Estão isentos da lei do jejum todos aqueles, que por causa da idade, de trabalhos pesados e de doença, não se acham em condições de cumpri-la. Mas aqueles outros que muito bem podiam jejuar, não deviam fazer uma interpretação mais larga da lei utilíssima e não procurar toda a sorte de desculpas para dela se eximir. Nos tempos em que os homens eram mais santos, mais puros e crentes, havia mais consciência também neste ponto, e a lei do jejum era observada com todo o rigor, sem murmuração alguma. Em nosso século, porém, que tem o estigma de material, sensual, tíbio e moderno; neste século, onde a sensualidade e a sede dos prazeres enchem a atmosfera, há reclamações, protestos e objeções de toda sorte contra a abstinência e o jejum. Que será de nós, se em vez de crucificar a nossa carne, cada vez mais a lisonjeamos? Grandes servos de Deus, na incerteza de salvar a alma, recorriam à penitência – e nós, infelizes escravos da concupiscência, vítimas das nossas paixões, pretendemos poder andar sossegadamente no largo caminho da perdição, procurando alarga-lo ainda mais? Como falou Cristo? “Estreita é a porta e apertado o caminho, que guia para a vida eterna”. (Mt. 7, 24).

Revelação do inferno por Santo Anselmo

1.
Jazem nas trevas exteriores. Pois, lembrai-vos, o fogo do inferno não emite nenhuma luz. Assim como, ao comando de Deus, o fogo da fornalha babilônica perdeu o seu calor mas não perdeu a sua luz, assim, ao comando de Deus, o fogo no inferno, conquanto retenha a intensidade do seu calor, arde eternamente nas trevas.
2. E uma tempestade que nunca mais acaba de trevas, de negras chamas e de negra fumaça de enxofre a arder, por entre as quais os corpos estão amontoados uns sobre os outros sem uma nesga de ar. De todas as pragas com que a terra dos faraós foi flagelada, uma praga só, a da treva, foi chamada de horrível. Qual o nome, então, que devemos dar às trevas do inferno, que hão de durar não por três dias apenas, mas por toda a eternidade?
3. O horror desta estreita e negra prisão é aumentado por seu tremendo cheiro ativo. Toda a imundície do mundo, todos os monturos e escórias do mundo, nos é dito, correrão para lá como para um vasto e fumegante esgoto quando a terrível conflagração do último dia houver purgado o mundo. O enxofre, também, que arde lá em tão prodigiosa quantidade, enche todo o inferno com o seu intolerável fedor; e os corpos dos danados, eles próprios, exalam um cheiro tão pestilento que, como diz São Boa
ventura, só um deles bastaria para infeccionar todo o mundo.

4. O próprio ar deste mundo, esse elemento puro, torna-se fétido e irrespirável quando fica fechado longo tempo. Considerai, então, qual deva ser o fétido do ar do inferno. Imaginai um cadáver fétido e pútrido que tenha jazido a decompor-se e a apodrecer na sepultura, uma matéria gosmenta de corrupção líquida. Imaginai tal cadáver preso das chamas, devorado pelo fogo do enxofre a arder e a emitir densos e horrendos fumos de nauseante decomposição repugnante. E a seguir imaginai esse fedor malsão multiplicado um milhão e mais outro milhão de milhões sobre milhões de carcaças fétidas comprimidas juntas na treva fumarenta, uma enorme fogueira de podridão humana. Imaginai tudo isso e tereis uma certa idéia do horror do cheiro do inferno.
5. Mas tal fedentina não é, horrível pensamento é este, o maior tormento físico ao qual os danados estão sujeitos. O tormento do fogo é o maior tormento ao qual o demo tem sempre sujeitado suas criaturas. Colocai o vosso dedo por um momento na chama duma vela e sentireis a dor do fogo. Mas o nosso fogo terreno foi criado por Deus para benefício do homem, para manter nele a centelha de vida e para ajudá-lo nas artes úteis, ao passo que o fogo do inferno é duma outra qualidade e foi criado por Deus para torturar e punir o pecador sem arrependimento.
6. O nosso fogo terrestre, outrossim, se consome mais ou menos rapidamente, conforme o objeto que ele ataca for mais ou menos combustível, a ponto de a ingenuidade humana ter-se sempre entregado a inventar preparações químicas para garantir ou frustrar a sua ação. Mas o sulfuroso breu que arde no inferno é uma substância que foi especialmente designada para arder para sempre e ininterruptamente com indizível fúria. Além disso, o nosso fogo terrestre destrói ao mesmo tempo que arde, de maneira que quanto mais intenso ele for mais curta será a sua duração; já o fogo do inferno tem esta propriedade de preservar aquilo que ele queima e, embora se enfureça com incrível ferocidade, ele se enfurece para sempre.
7. O nosso fogo terrestre, ainda, não importa que intensidade ou tamanho possa ter, é sempre duma extensão limitada; mas o lago de fogo do inferno é ilimitado, não tem praias nem fundo. E está documentado que o próprio demônio, ao lhe ser feita a pergunta por um soldado, foi obrigado a confessar que se uma montanha inteira fosse jogada dentro do oceano ardente do inferno seria queimada num instante como um pedaço de cera. E esse terrível fogo não aflige os danados somente por fora, pois cada alma perdida se transforma num inferno dentro de si mesma, o fogo sem limites se enraivecendo mesmo em sua essência. Oh! Quão terrível é a sorte desses desgraçados seres! O sangue ferve e referve nas veias; os cérebros ficam fervendo nos crânios; o coração no peito flamejando e ardendo; os intestinos, uma massa vermelha e quente de polpa a arder; os olhos. coisa tão tenra, flamejando como bolas fundidas.

8. Ainda assim, quanto vos falei da força, da qualidade e da ilimitação desse fogo é como se fosse nada quando comparado com a sua intensidade, uma intensidade que é justamente tida como sendo o instrumento escolhido pelo desígnio divino para punição da alma assim como do corpo igualmente. Trata-se dum fogo que procede diretamente da ira de Deus, trabalhando não por sua própria atividade, mas como um instrumento da vingança divina. Assim como as águas do batismo limpam tanto a alma como o corpo, assim o fogo da punição tortura o espírito junto com a carne.
9. Todos os sentidos da carne são torturados; e todas as faculdades da alma outro tanto: os olhos com impenetráveis trevas; o nariz com fétidos nauseantes; os ouvidos com berros, uivos e execrações; o paladar com matéria sórdida, corrupção leprosa, sujeiras sufocantes inomináveis; o tato com aguilhões e chuços em brasa e cruéis línguas de chamas. E através dos vários tormentos dos sentidos a alma imortal é torturada eternamente, na sua essência mesma, no meio de léguas e léguas de ardentes fogos acesos nos abismos pela majestade ofendida de Deus Onipotente e soprados numa perene e sempre crescente fúria pelo sopro da raiva da Divindade.
10. Considerai, finalmente, que o tormento dessa prisão infernal é acrescido pela companhia dos condenados mesmos. A má companhia, sobre a terra, é tão nociva que as plantas, como que por instinto, apartam-se da companhia seja do que for que lhes seja mortal ou funesto. No inferno, todas as leis estão trocadas lá não há nenhum pensamento de família, de pátria, de laços, de relações. O danado goela e grita um com o outro, sua tortura e raiva se intensificando pela presença dos seres torturados e se enfurecendo como ele.
11. Todo o senso de humanidade é esquecido. Os lamentos dos pecadores a sofrerem enchem os mais recuados cantos do vasto abismo. As bocas dos danados estão cheias de blasfêmias contra Deus e de ódio por seus companheiros de suplício e de maldições, contra as almas que foram seus companheiros no pecado. Era costume, nos antigos tempos, punir o parricida, o homem que havia erguido sua mão assassina contra o pai, arremessando nas profundezas do mar num saco dentro do qual também eram colocados um galo, um burro e uma serpente.
12. A intenção desses legisladores, que inventaram tal lei, a qual parece cruel nos nossos tempos, era punir o criminoso pela companhia de animais malignos e abomináveis. Mas que é a fúria dessas bestas estúpidas comparada com a fúria da execração que rompe dos lábios tostados e das gargantas inflamadas dos danados no inferno, quando eles contemplam em seus companheiros em miséria aqueles mesmos que os ajudaram e incitaram no pecado, aqueles cujas palavras semearam as primeiras sementes do mal em pensamento e em ação em seus espíritos, aqueles cujas sugestões insensatas os conduziram ao pecado, aqueles cujos olhos os tentaram e os desviaram do caminho da virtude? Voltam-se contra tais cúmplices e os xingam e amaldiçoam. Não terão, todavia, socorro nem ajuda; agora é tarde demais para o arrependimento.
13. Por último de tudo, considerai o tremendo tormento daquelas almas condenadas, as que tentaram e as que foram tentadas, agora juntas, e ainda por cima, na companhia dos demônios. Esses demônios afligirão os danados de duas maneiras: com a sua presença e com as suas admoestações. Não podemos ter uma idéia de quão terríveis são esses demônios. Santa Catarina de Siena uma vez viu um demônio e escreveu que preferia caminhar até o fim de sua vida por um caminho de carvões em brasa a ter que olhar de novo um único instante para tão horroroso monstro.
14. Tais demônios, que outrora foram formosos anjos, tornaram-se tão repelentes e feios quanto antes tinham de lindos. Escarnecem e riem das almas perdidas que arrastaram para a ruína. É com eles que são feitas, no inferno, as vozes da consciência. Por que pecaste? Por que deste ouvido às tentações dos amigos? Por que abandonaste tuas práticas piedosas e tuas boas ações? Por que não evitaste as ocasiões de pecado? Por que não deixaste aquele mau companheiro? Por que não desististe daquele mau hábito, aquele hábito impuro? Por que não ouviste os conselhos do teu confessor? Por que, mesmo depois de haveres tombado a primeira, ou a segunda, ou a terceira, ou a quarta ou a centésima vez, não te arrependeste dos teus maus passos e não voltaste para Deus, que esperava apenas pelo teu arrependimento para te absolver dos teus pecados? Agora o tempo para o arrependimento se foi. Tempo existe, tempo existiu, mas tempo não existirá mais!

15. Tempo houve para pecar às escondidas, para se satisfazer na preguiça e no orgulho, para ambicionar o ilícito, para ceder às instigações da tua baixa natureza, para viver como as bestas do campo, ou antes, pior do que as bestas do campo, porque elas, ao menos, não são senão brutos e não possuem uma razão que as guie; tempo houve, mas tempo não haverá mais. Deus te falou por intermédio de tantas vozes, mas não quiseste ouvir. Não quiseste esmagar esse orgulho e esse ódio do teu coração, não quiseste devolver aquelas ações mal adquiridas, não quiseste obedecer aos preceitos da tua Santa Igreja nem cumprir teus deveres religiosos, não quiseste abandonar aqueles péssimos companheiros, não quiseste evitar aquelas perigosas tentações. Tal é a linguagem desses demoníacos atormentadores, palavras de sarcasmo e de reprovação, de ódio e de aversão. De aversão, sim! Pois mesmo eles, os demônios propriamente, quando pecaram, pecaram por meio dum pecado que era compatível com tão angélicas naturezas: foi uma rebelião do intelecto; e eles, estes mesmos, têm que se afastar, revoltados e com nojo de terem de contemplar aqueles pecados indizíveis com os quais o homem degradado ultraja e profana o templo do Espírito Santo, e se ultraja e avilta a si mesmo.

quinta-feira, 21 de março de 2024

São João de Brito S. J., Mártir


Comemoração Litúrgica: 4 de fevereiro.


Filho de Salvador Pereira de Brito e Brites Pereira nasceu João de Brito em 1° de março de 1647, em Lisboa. Educado entre os pajens do Rei D. João, distinguiu-se sempre pela lhaneza do seu trato e delicadeza de consciência. Em seu coração nutria sempre o desejo de oferecer a Deus uma vida mais perfeita, pela observação dos conselhos evangélicos. Paralelo a este desejo ia a vontade de sacrificar sua vida como missionário das Índias. Foi esta aspiração, que o animou a entrar no postulado da Companhia de Jesus em São Roque. Contava ele 14 anos.
Fez lisonjeiros progressos nos seus estudos, e chegou a receber as ordens sacerdotais. Em uma das cartas que ao Superior Geral da Companhia dirigiu, e em que se externa sobre o íntimo desejo de sua alma, lê-se o seguinte trecho: “O desejo que tenho e que, dia e noite, me abrasa de ir às Índias para me empregar na salvação das almas, é tão veemente que, se pudesse renovaria todos os dias esta petição a V.ª Paternidade”.
Ordenado sacerdote, teve grande satisfação de ser mandado para as Missões da Índia. Em Goa se deteve alguns anos, completando os estudos teológicos. Terminados estes, iniciou a sua vida de missionário ativo na região Maduré. Qual outro Francisco Xavier, cujo apostolado glorioso lhe era o ideal, de corpo e alma se atirou aos múltiplos trabalhos da sua Missão, conservando-se sempre fiel no espírito do temor de Deus, na rigorosa observância das constituições e no amor pelas almas imortais.
Deus abençoou visivelmente o apostolado do seu servo. Aos milhares os hindus vieram aos pés do missionário jesuíta, professar-lhe a fé em Jesus Cristo e pedir o santo batismo. Os sacrifícios por ele feitos durante 20 anos de labor missionário, ele os viu recompensados na medida de cento por um.
O inimigo de todo o bem não podia ver isto de bons olhos; muito menos com a conversão de tantas almas podia ele se conformar. Os sacerdotes pagãos tramaram terrível perseguição ao apóstolo de Cristo, que um dia, quando menos por isso podia esperar, viu-se rodeado de uma corte inimiga, que o prenderam a ele e os seus companheiros. De mil modos os maltrataram, dando-lhe finalmente a morte pela espada. Amputaram-lhe ainda as mãos e os pés. O tronco com a cabeça foram em lugar público expostos ao ludíbrio do poviléu. As relíquias foram depositadas na igreja do Colégio dos Jesuítas em Goa, onde se acha também o corpo de São Francisco Xavier.
Em 17 de fevereiro de 1853, Padre João de Brito foi inscrito no elenco dos Bem-aventurados pelo Papa Pio IX. Em 27 de junho de 1947 foi canonizado pelo Sumo Pontífice Pio XII.
 

Reflexões:

 
“Para nós brasileiros, como bem acentuou o grande historiador Padre Serafim Leite, São João de Brito tem uma expressão que se não encontra em nenhum outro Santo e o torna em certo sentido nosso, porque nasceu num período em que Portugal e o Brasil constituíam uma unidade política (1647) e o seu pai Salvador de Brito Pereira ocupou o alto cargo de governador do Rio de Janeiro e ali faleceu em 1650.
Outro fato o liga ainda à nossa terra e à nossa gente, por ter ele próprio vivido algum tempo no Colégio dos Jesuítas da Bahia quando em 1687, já depois de ter padecido na Índia gravíssimos tormentos como confessor da Fé, ia a caminho de Portugal, no ofício de procurador de sua Missão.
A presença do mártir nesta Capital causou indiscutível abalo e inflamou os corações de alguns estudantes para seguir, na mesma Índia os seus exemplos e apostolado. E o movimento, assim iniciado, veio a desabrochar depois em expedições missionárias brasileiras, saídas desta Capital para a Índia no século XVIII, primeira e gloriosa manifestação do expansionismo externo do Brasil Católico”.
Cabendo a esta Cidade do Salvador a honra insigne de ter sido o único pedaço do solo brasileiro visitado por São João de Brito, merece aplausos a iniciativa dos portugueses que vão distingui-la com a primazia de possuir e venerar a primeira imagem do novo santo de Portugal, oferecida à Basílica da Conceição da Praia, pelos seus conterrâneos, que, na Bahia vivem e trabalham pela propagação da mesma fé que levou o Apóstolo de Maduré à glória do martírio.

terça-feira, 19 de março de 2024

Santa Faustina e a visão do inferno

Santa Faustina Kowalska, freira mística polaca (1905-1935), foi canonizada pelo Papa João Paulo II, na Festa da Divina Misericórdia, durante o Jubileu de 2000). 
"Hoje, conduzida por um Anjo, fui levada às profundezas do Inferno um lugar de grande castigo, e como é grande a sua extensão. Tipos de tormentos que vi:
1. Primeiro tormento que constitui o Inferno é a perda de Deus;

2. O segundo, o contínuo remorso de consciência;

3. O terceiro, o de que esse destino já não mudará nunca;

4. O quarto tormento, é o fogo que atravessa a alma, mas não a destrói; é um tormento terrível, é um fogo puramente espiritual, aceso pela ira de Deus;

5. O quinto é a contínua escuridão, o terrível cheiro sufocante e, embora haja escuridão, os demônios e as almas condenadas veem-se mutuamente e veem todo o mal dos outros e o seu.

6. O sexto é a continua companhia do demônio;

7. O sétimo tormento, o terrível desespero, ódio a Deus, maldições, blasfêmias.

São tormentos que todos os condenados sofrem juntos, mas não é o fim dos tormentos. Existem tormentos especiais para as almas, os tormentos dos sentidos. Cada alma é atormentada com o que pecou, de maneira horrível e indescritível . Existem terríveis prisões subterrâneas, abismos de castigo, onde um tormento se distingue do outro. Eu teria morrido vendo esses terríveis tormentos, se não me sustentasse a onipotência de Deus.
Que o pecador saiba que será atormentado com o sentido com que pecou, por toda a eternidade.
Estou escrevendo por ordem de Deus, para que nenhuma alma se escuse dizendo que não há inferno ou que ninguém esteve "lá e não sabe como é".
Eu, Irmã Faustina, por ordem de Deus, estive nos abismos para falar às almas e testemunhar que o Inferno existe. Sobre isso não posso falar agora, tenho ordem de Deus para deixar isso por escrito. Os demônios tinham grande ódio contra mim, mas, por ordem de Deus, tinham que me obedecer. O que eu escrevi dá apenas uma pálida imagem das coisas que vi. Percebi, no entanto, uma coisa: o maior número das almas que lá estão é justamente daqueles que não acreditavam que o Inferno existisse. Quando voltei a mim, não podia me refazer do terror de ver como as almas sofrem terrivelmente ali e, por isso, rezo com mais fervor ainda pela conversão dos pecadores; incessantemente, peço a misericórdia de Deus para eles. " Ó, meu Jesus, prefiro agonizar até o fim do mundo nos maiores suplícios a ter que vos ofender com o menor pecado que seja."

Consequências da alma ao ir ao inferno segundo Santa Faustina:

1) A perda de Deus
Então Ele dirá aos que estiverem à Sua esquerda: "Malditos, apartem-se de Mim" (Mt 25:41).
Aqueles serão punidos de uma perda eterna, afastados da face do Senhor e da glõria da Sua força (2 Ts 1:9).

2) O remordimento da consciência
O seu verme não morrerá (Mc 9,48).

3) O destino dos condenados nunca cambiará
"E estes irão para o castigo eterno" (Mt 25:46).

4) O fogo
"Malditos, apartem-se de mim para o fogo eterno" (Mt 25:41).

5) As trevas
Lancem-no para fora, nas trevas (Mt 22:13; Mt 25:30).

6) A companhia Satã
"Então Ele dirá aos que estiverem à Sua esquerda: 'Malditos, apartem-se de Mim para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos." (Mt 25:41).

7) O desespero
Ali haverá choro e ranger de dentes (Mt 22:13; Mt)

quinta-feira, 14 de março de 2024

André apóstolo, o "pescador de Homens"

Apóstolo de Jesus Cristo nascido em Betsaida da Galiléia, também conhecido como o Afável foi escolhido para ser um dos Doze, e nas várias listas dos Apóstolos dadas no Novo Testamento é sempre citado entre os quatro mais importantess, junto com Pedro, João e Tiago, sendo seu nome mencionado explicitamente três vezes: por ocasião do discurso sobre a consumação dos tempos de Jesus, na primeira multiplicação dos pães e dos peixes e quando, juntamente com Filipe, apresentou ao mestre alguns gentios. Também pescador em Cafarnaum, foi o primeiro a receber de Cristo o título de Pescador de Homens e, portanto, o primeiro a recrutar novos discípulos para o Mestre. Filho de Jonas tornou-se discípulo do João Batista, cujo testemunho o levou juntamente com João Evangelista a seguirem Jesus e convencer seu irmão mais velho, Simão Pedro a seguí-los. Desde aquele momento os dois irmãos tornaram-se discípulos do Senhor e deixaram tudo para seguí-lo. No começo da vida pública de Jesus ocuparam a mesma casa em Cafarnaum. Segundo as Escrituras esteve sempre próximo ao mestre durante sua vida pública. Estava presente na Última Ceia, viu o Senhor Ressuscitado, testemunhou a Ascensão, recebeu graças e dons no primeiro Pentecostes e ajudou, entre grandes ameaças e perseguições, a estabelecer a Fé na Palestina, passando provavelmente por Cítia, Épiro, Acaia e Hélade. Para Nicéforo ele pregou na Capadócia, Galácia e Bitínia, e esteve em Bizâncio, onde determinou a fundação da Igreja local e apontou São Eustáquio como primeiro bispo. Finalmente esteve na Trácia, Macedônia, Tessália e Acaia. Foi na Grécia, segundo a tradição, durante o reinado de Trajano, que foi crucificado em Patros da Acaia, cidade na qual havia sido eleito bispo, por ordem do procônsul romano Egéias. Atado, não pregado, a uma cruz em forma de X, que ficou conhecida como a cruz de Santo André, embora que a evidência generalizada deste tipo de martírio não seja anterior ao século catorze. Suas relíquias foram transferidas de Patros para Constantinopla (356) e depositadas na igreja dos Apóstolos (357), tornando-se padroeiro desta cidade. Quando Constantinopla foi invadida pelos franceses no início do século treze, o Cardeal Pedro de Cápua trouxe as relíquias à Itália e as colocou na catedral de Amalfi. Anos mais tarde, decidiram levar seus restos mortais para a Escócia, onde fora escolhido padroeiro, mas o navio que os transportava naufragou em uma baía que, por esta ocorrência, passou a ser denominada de Baía de Santo André. É honrado como padroeiro da Rússia e Escócia e no calendário católico é comemorado no dia 30 de novembro, data de seu martírio.
Adriano nasceu no ano 635 no norte da África e foi batizado com o nome de Hadrian. Tinha apenas cinco anos de idade quando sua família imigrou para a cidade italiana de Nápolis, pouco antes da invasão dos árabes. Lá estudou no convento dos beneditinos de Nerida, onde se consagrou sacerdote.
Adriano se tornou um estudioso da Sagrada Escritura, profundo conhecedor de grego e latim, professor de ciências humanas e teologia. A fama de sua capacidade e conhecimento chegou ao imperador Constantino II que em 663 o fez seu embaixador junto ao papa Vitalino, função que exerceu duas vezes. Depois, este papa o nomeou como um dos seus conselheiros.
Quando morreu o bispo da Cantuária, Inglaterra, o papa Vitalino convidou Adriano para assumir aquele cargo, mas ele recusou a indicação duas vezes, alegando não ter suficiente competência para ocupar esse posto. O papa lhe pediu para que indicasse alguém mais competente, pois ele mesmo não conhecia.

Nesta ocasião Adriano havia se encontrado com seu grande amigo, o teólogo grego e monge beneditino Teodoro de Tarso que estava em Roma. Adriano o indicou ao papa Vitalino. Consultado, Teodoro disse que estava disposto a aceitar, mas somente se Adriano concordasse em ir para a Inglaterra ajudá-lo na missão evangelizadora. Adriano aceitou de imediato. O papa consagrou Teodoro, bispo da Cantuária e nomeou Adriano seu assistente e conselheiro, em 668.

Ele chegou na Inglaterra um ano depois, pois foi detido durante a viagem, na França sob suspeita que tinha uma missão secreta do imperador Constantino II, para os reis ingleses, mas foi solto ao atestarem a sua integridade de sacerdote.

Adriano e Teodoro foram evangelizadores altamente bem sucedidos, junto ao povo inglês cuja maioria era pagã. O bispo Teodoro, logo colocou Adriano como abade do convento beneditino de São Pedro, depois chamado de Santo Agostinho, na Cantuária. Sob sua liderança, esta escola se tornou um centro de aprendizagem e formação de clérigos para a Igreja dos povos anglicanos.

Adriano viveu neste país durante trinta e nove anos, totalmente dedicados ao serviço da Igreja. Nele os ingleses encontraram um pastor cheio de sabedoria e piedoso, um verdadeiro missionário e instrumento de Deus. Muitos se iluminaram com os seus exemplos de vida profundamente evangélica.

Morreu em 9 de janeiro de 710, foi enterrado no cemitério daquele convento, na Inglaterra. A sua sepultura se tornou um lugar de graças, prodígios e peregrinação. Em 1091, o seu corpo foi encontrado incorrupto e trasladado para a cripta da igreja do mesmo convento. Adriano foi proclamado Santo pela Igreja, que o festeja no dia em que morreu.

quarta-feira, 13 de março de 2024

São Vicente de Paulo


Festa litúrgica: 23 de setembro

São Vicente de Paulo nasceu em uma terça-feira de Páscoa, em 24 de abril de 1581, na aldeia Pouy, sul da França. Vicente foi batizado no mesmo dia de seu nascimento. Era o terceiro filho do casal João de Paulo (Jean de Paul) e Bertranda de Moras (Bertrande de Moras), camponeses profundamente católicos. Seus seis filhos receberam o ensino religioso em casa através de Bertranda.

Desde cedo destacou-se pela notável inteligência e devoção. Fez seus primeiros estudos em Dax, onde, após 4 anos, tornou-se professor. Isto lhe permitiu concluir os estudos de teologia na Universidade de Toulouse. Foi ordenado sacerdote, aos dezenove anos, em 23 de setembro de 1600.

Ordenou-se padre e logo passou pela primeira provação: uma viúva que gostava de ouvir as suas pregações, ciente de que ele era pobre, deixou para ele sua herança - uma pequena propriedade e determinada importância em dinheiro, que estava com um comerciante em Marselha.

No retorno desta viagem a Marselha, em 1605, o navio em que se encontrava foi atacado por piratas turcos. Pe. Vicente sobreviveu ao ataque, mas foi feito prisioneiro. Os turcos o conduziram a Túnis, onde foi vendido como escravo para um pescador, depois para um químico; com a morte deste, foi herdado pelo sobrinho do químico, que o vendeu para um fazendeiro, um renegado, que antes era católico e, com medo da escravidão, adotara a religião muçulmana. Ele tinha três esposas: uma era turca e esta, ouvindo os cânticos do escravo, sensibilizou-se e quis saber o significado do que ele cantava. Ciente da história, ela censurou o marido por ter abandonado uma religião que para ela parecia tão bonita. O patrão de Pe. Vicente arrependeu-se e propôs a ele uma fuga para a França, que só se realizou dez meses depois, já em 1607.

Eles atravessaram o Mar Mediterrâneo em uma pequena embarcação e conseguiram chegar à costa francesa. De Aigues-Mortes foram para Avinhão, onde encontraram o Vice-Legado do Papa. Vicente voltou à condição de padre e o renegado abjurou publicamente, retornando à Igreja Católica. Vicente e o renegado ficaram vivendo com o Vice-Legado e, quando este precisou viajar a Roma, levou-os em sua companhia. Durante a estada na cidade, Pe. Vicente frequentou a universidade e se formou em Direito Canônico. E o renegado foi admitido em um mosteiro, onde se tornou monge.
O Papa precisou mandar um documento sigiloso para o Rei Henrique IV da França e Pe. Vicente foi escolhido como fiel depositário. Devido a sua presteza, o Rei Henrique IV nomeou-o Capelão da Rainha Margarida de Valois, a rainha Margot. Pe. Vicente era encarregado da distribuição de esmolas aos pobres e fazia visitas aos enfermos no hospital de caridade em nome da rainha. Após o assassinato de Henrique IV da França, em 1610, São Vicente passou um ano na Sociedade do Oratório, fundada pelo Cardeal Pierre de Bérulle. Mais tarde, padre Bérulle foi nomeado Bispo de Paris e indicou Vicente de Paulo para vigário de Clichy, subúrbio de Paris.
Vicente fundou a Confraria do Rosário e todos os dias visitava os doentes. Atendendo a um pedido de padre Berulle, partiu e foi ser o preceptor dos filhos do general das galés e residir no Palácio dos Gondi. Naquele período, a Marinha francesa estava em expansão e, para resolver o problema da mão-de-obra necessária para o remo, era costume a condenação às galés por delitos comuns. Vicente empenhou-se nesta missão, lutando por mais dignidade para estes prisioneiros, que viviam em condições sub-humanas. No trabalho em favor dos condenados às galés chegou até a se colocar no lugar de um deles para libertá-lo. As propriedades da família dos Gondi eram muito grandes e Pe. Vicente e a senhora de Gondi faziam visitas às famílias que residiam nestas propriedades. Foi assim que o Pe. Vicente percebeu como era necessária a confissão deste povo. Na missa dominical, ele fazia com o povo a confissão comunitária. Conseguiu outros padres para as confissões, pois eram muitos os que queriam esse sacramento. Pe. Vicente esteve nas terras da família Gondi por cinco anos. Foi a Paris e, mais tarde, a pedido do Pe. Berulle, voltou para a casa dos Gondi por mais oito anos.
Sua piedade heróica conferiu-lhe o cargo de Capelão Geral e Real da França. Vendo o abandono espiritual dos camponeses, fundou a Congregação da Missão, que são os Padres Lazaristas, para evangelização do "pobre povo do interior". A Congregação da Missão demorou de 1625 até 12 de janeiro de 1633 para receber a Bula do Papa Urbano VIII, reconhecendo-a.
Em 1643, Luís XIII pediu para ser assistido, em seu leito de morte, por Vicente, tendo morrido em seus braços. A seguir foi nomeado pela Regente Ana d'Áustria, de quem era o confessor, para o Conselho de Consciência (para assuntos eclesiásticos dessa Regência).
Num apelo que o padre Vicente fez durante sermão em Châtillon, nasceu o movimento das Senhoras Damas da Caridade (Confraria da Caridade). A primeira irmã de caridade foi a camponesa Margarida Nasseau, que contou com a orientação de Santa Luísa de Marillac e que, mais tarde, estabeleceu a Confraria das Irmãs da Caridade, atuais Filhas da Caridade. De apenas quatro irmãs no começo, a Confraria conta, hoje, com centenas delas. Foi também ele o responsável pela organização de retiros espirituais para leigos e sacerdotes, através das famosas conferências das terças-feiras (Confraria de Caridade para homens).

Inpirado por seu amor a Deus e aos pobres, Vicente de Paulo foi o criador de muitas obras de amor e caridade. Sua vida é uma história de doação aos irmãos pobres e de amor a Deus. Existem diversas biografias suas, mas sabemos que nenhuma delas conseguirá descrever com total fidelidade o amor que tinha por seu irmãos necessitados. Muitos acham que a maior virtude de São Vicente é a caridade, mas sua humildade suplantava essa virtude. Sempre buscava o bem da Igreja. São Vicente de Paulo foi um pai dos Pobres e um reformador do clero. Basta dizer que a Conferências Vicentinas, fundadas por Antônio Frederico Ozanam e seus companheiros, em 23 de abril de 1833, foram inspiradas por ele. Espalhadas no mundo inteiro, vivem permanentemente de seus exemplos e ensinamentos.
Segundo São Francisco de Sales, Vicente de Paulo era o "padre mais santo do século". Faleceu em 27 de setembro de 1660 e foi sepultado na capela-mãe da Igreja de São Lázaro, em Paris. Foi canonizado pelo Papa Clemente XII em 16 de junho de 1737. Em 12 de maio de 1885 é declarado patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica, por Leão XIII.
Funda sucessivamente diversas congregações:
  • Em agosto de 1617 funda as Damas da Caridade, hoje conhecidas como Associação Internacional de Caridades - AIC.
  • Em 8 de dezembro de 1617 cria as Confrarias da Caridade.
  • Em 17 de abril de 1625 funda a Congregação da Missão, cujos membros são conhecidos como padres Lazaristas, ou padres vicentinos.
  • Em 29 de novembro de 1633 funda a congregação das Filhas da Caridade.

A sua canonização ocorreu em 16 de junho de 1737, pelo Papa Clemente XII. Em 12 de maio de 1885 foi declarado, pelo Papa Leão XIII, patrono de todas as obras de caridade da Igreja Católica.

O corpo de São Vicente de Paulo está atualmente exposto à visitação pública na Capela de São Vicente de Paulo, na Rua de Sèvres, Métro Vaneau, em Paris.

Santa Ângela de Fulgino (Foligno), Viúva




Comemoração Litúrgica:  4 de janeiro.
 

Nascida em Folígno, na Itália, Ângela era filha de pais nobres, e deles recebeu aprimorada educação. De beleza não comum, de maneiras afáveis, Ângela, bem nova ainda, contraiu núpcias com um cavalheiro distintíssimo de sua terra. Abençoada de prole numerosa, não lhe faltaram os cuidados múltiplos de mãe de família; mas tempo bastante lhe sobrava para dedicar-se a caprichos de vaidade, a festas e divertimentos de toda a sorte. Esta mudança no pensar e proceder da filha era objeto de sérias apreensões da parte dos pais, que não perderam ocasião de mostrar a Ângela a inconveniência de sua conduta. Debalde foram esses esforços e as admoestações dos pais. Ângela contrapunha as exigências de sua posição, a que entendia dever sacrificar as aspirações religiosas.
Não obstante, os conselhos paternais não perderam de todo valor. Ângela, que a princípio tanto amor manifestava às coisas frívolas deste mundo, mais tarde confessou: “Descontente de mim mesma, comecei a pensar seriamente em minha vida. Deus fez-me conhecer os meus pecados, e minha alma encheu-se de pavor, prevendo a possibilidade de minha condenação; tamanha era minha vergonha, que não achei coragem de confessar todos os pecados, do que resultou que diversas vezes recebi os santos Sacramentos sacrilegamente. Vi minha consciência atormentada dia e noite. Pedi a Nossa Senhora, que me conduzisse a um sacerdote esclarecido, ao qual pudesse fazer minha confissão geral. Esta oração foi ouvida: não senti, porém, nenhum amor a Deus, mas tanto mais arrependimento, dor e vergonha dos meus pecados”. Feita a conversão, Ângela ficou firme nas resoluções e fiel no cumprimento dos deveres.
          Esta constância mereceu-lhe ainda graças preciosíssimas: a de um grande e perseverante arrependimento dos pecados e uma devoção terníssima à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Embora se lhe tornasse difícil, ajudada pelo auxílio da graça divina, Ângela modificou radicalmente a vida. Antes tão ávida de diversões, procurou em seguida os doces e suaves prazeres do lar; antes vaidosa e opulenta, dispôs das jóias, transformando-as em ricas esmolas; antes dissipada, tornou-se amantes do recolhimento e da meditação. “Tudo isto – ela mesma confessou – me era extremamente difícil; faltava-me ainda o doce consolo do amor de Deus, que suaviza as coisas mais difíceis; era obrigação minha agradar a meu esposo e tomar  em consideração os deveres do meu estado, por maior que fosse minha vontade de abandonar tudo e morrer a mim mesma”.
            Estava determinado nos planos de Deus que, com prazo de poucos intervalos, Ângela perdesse o marido e todos os filhos.
            Indivisível lhe era o sofrimento. A graça de Deus, porém, preparando assim para Ângela o caminho da perfeição, fez cicatrizar também estas feridas.
            Ângela, livre de todos os laços que a prendiam à terra, santificou sua viuvez ao pé do crucifixo, fazendo o voto de castidade e pobreza e pediu admissão na Ordem Terceira de São Francisco. A vaidade, a sensualidade, a febre do desejo de agradar aos homens, deram lugar à humildade, à mortificação e ao amor de Jesus Crucificado. A devoção à sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor tomou-lhe posse da alma e de todas as aspirações. Na meditação dos sofrimentos do Homem-Deus achou paz e consolo.
             Jesus distingui-a com aparições e fê-la participar da cruz. Grandes eram os seus sofrimentos corporais e espirituais; de todos o maior era uma contínua perseguição diabólica. O demônio, apresentando-lhe continuamente ao espírito a vida pecaminosa de outrora, queria arrancar-lhe a fé na misericórdia divina, no valor de suas obras de penitência e importunava-a com tentações as mais terríveis contra a santa pureza, tanto que Ângela mesma confessa:
              “Seria mais tolerável para mim sofrer todas as dores, suportar as torturas mais horrorosas dos mártires, que me ver exposta às tentações diabólicas contra a pureza”.
               A oração e as obras de caridade foram as armas com que venceu nesta luta tremenda. Quotidiana era sua visita aos pobres doentes no hospital, aos quais, além de esmola espiritual, levava também o socorro material, ganhando assim as almas para Jesus Cristo.
              Assim correu a vida de Santa Ângela, até o dia em que Deus a chamou para a eterna recompensa. No dia que lhe precedeu a morte, sentiu-se livre de todas as dores e tentações e uma felicidade celestial inundou-lhe a alma. Nesta disposição recebeu os santos sacramentos, e entrou no reino da glória, no dia da oitava da Festa dos Inocentes, conforme tinha profetizado. O Papa Inocêncio XII inseriu-lhe o nome no catálogo dos santos da Igreja.

Reflexões:
              Santa Ângela é uma daquelas Santas de que não se pode absolutamente dizer que nasceram santas. Apesar da grande felicidade de ter bons pais, que vigiavam pela educação moral e intelectual da filha, esta se deixou levar pelas influências más do mundo, que não é de Deus. Bastante se afastou do caminho da virtude, chegando ao ponto de não ter mais coragem de fazer boa confissão e neste estado comungou sacrilegamente. É possível que uma alma chegue a este ponto? Possível é, e muitos são aqueles, em cuja vida se dá coisa semelhante. Não fosse a misericórdia divina, a qual, aproveitando-se de mil circunstâncias, às vezes as mais insignificantes, oferece auxílio à alma caída, esta não mais se levantaria da sua miséria.
               Em Santa Ângela foi o temor do inferno, que a fez voltar. Apoderou-se da sua alma um temor tal da justiça divina, que, seguindo o conselho de Nosso Senhor preferiu cortar a mão, o pé, arrancar o olho que lhe serviam de pecado e fez penitência. – “Lembra-te dos teus novíssimos e não cairás em pecado”, diz o Espírito Santo. Não imites a pecadora Ângela no seu mau procedimento, mas, se tiveste a infelicidade de cair, toma-a por modelo na penitência, na atitude enérgica de fazer penitência. Boa vontade é que Nosso Senhor quer ver também no pecador. Desde que a alma infeliz a possua, não tardará o perdão divino, e com este volta a paz e tranquilidade do espírito.

terça-feira, 12 de março de 2024

São Paulo Míki e companheiros mártires

Comemoração litúrgica: 6 de Fevereiro

São Paulo Míki nasceu em Kyoto, no Japão, no século XVI dentro de uma família cristã, nobre, que foi canal para que ele recebesse, ainda pequeno, a graça do batismo. A partir de então, buscou também viver a riqueza do “ser batizado”. Discerniu a sua vocação, entrou para a Companhia de Jesus, tornou-se um Jesuíta e correspondeu ao chamado do sacerdócio.

Profundo conhecedor tanto da cultura quanto da língua, foi um homem compadecido do seu povo. Como nos tempos de hoje, o Japão não tinha o Cristianismo como religião predominante, então, São Paulo Míki buscava responder à necessidade da evangelização pela oração e pela penitência. Com estratégias inspiradas pelo Espírito Santo, foi um homem dócil, de comunidade.

Ousado e corajoso, quando ergueu-se à perseguição do Cristianismo no Japão também acabou sendo preso, assim como seus companheiros; mas não arrefeceu na sua fé. 
Ele, que era um grande pastor e pregador, também no momento do confronto, indicou Nosso Senhor Jesus Cristo e a sua religião como o único Salvador e a verdadeira religião; verdade que perdura para todos os tempos.

São Paulo Míki, assim como os companheiros de missão e outros cristãos fervorosos, deram testemunho com a vida e também com a mote.

Em Nagasaki, foram todos crucificados em 1595. 
Sementes para novos cristãos, desde a passagem de São Francisco Xavier já se contavam 300 mil cristãos no Japão. 
Depois, muito mais com testemunho desses 26 companheiros de Jesus.

Peçamos a intercessão deste santo para que o nosso relacionamento profundo com Deus se traduza em evangelização para a humanidade.

São Paulo Míki e companheiros mártires, rogai por nós!

São Teodósio, Monge


Comemoração litúrgica: 11 de janeiro.


Mogariasse, na Capadócia, é a terra onde, em 424, de pais piedosos, nasceu Teodósio, cuja vida foi escrita por Teodoro, seu discípulo. Os frutos da boa educação que dos pais recebera, não tardaram a aparecer. Ainda muito jovem, foi escolhido a fazer a leitura pública, por ocasião da Santa Missa. Assim adquiriu um conhecimento mais profundo dos Livros Santos e cada vez mais se lhe acentuou no coração o desejo de santidade e do desapego neste mundo.
 
Lendo frequentes vezes a história do patriarca Abraão, sempre o impressionava a ordem que este santo varão recebera de Deus, de abandonar sua terra e família, e procurar outras paragens. A mesma ordem parecia-lhe ser dada. Antes, porém, de tomar uma resolução definitiva a este respeito, fez uma viagem à Terra Santa, onde visitou os Santos Lugares. Nesta ocasião, passou pelo lugar onde se achava São Simeão Estelita. O grande penitente, sem o ter visto antes, chamou-o pelo nome e disse-lhe que Deus o tinha escolhido para ser instrumento da santificação de muitas almas. O resultado dessa visita aos Santos Lugares, em Jerusalém, foi a resolução de dedicar-se à vida religiosa, no convento.
 
Próximo a torre de Davi, morava um santo eremita, de nome Longino, cuja santidade estava na boca de todos. À direção daquele homem Teodósio se confiou, e em pouco tempo fez tanto progresso na santidade, que lhe foi oferecida a provedoria de uma igreja de Nossa Senhora, que uma piedosa mulher tinha construído, no caminho que vai para Belém. Teodósio aceitou o cargo, em obediência ao superior.
 
Como as freqüentes e numerosas visitas o aborrecessem, Teodósio retirou-se para a solidão duma gruta, onde viveu trinta anos, entregue às práticas da mais austera penitência. A fama da sua santidade atraiu tantos moços, desejando viver em sua companhia, que Teodósio, sem que o tivesse planejado organizou o regulamento da comunidade, de que veio a ser superior. Ao lado do convento, Teodósio fez um albergue para peregrinos e um hospital. Este último, mereceu-lhe especial cuidado, e foi teatro de sua caridade. Podia faltar-lhe tudo, menos a confiança ilimitada na Divina Providência. De fato esta nunca o abandonou, como provam acontecimentos que evidentemente mostram a intervenção do auxílio de Deus, em ocasiões de grandes embaraços.
 
Como a caridade era excepcional a humildade do servo de Deus, encontrando uma vez dois discípulos em forte rixa, pôs-se de joelhos entre eles, fazendo-os lembrar das leis da caridade, e não se levantou enquanto não fizeram as pazes.
 
Em certa ocasião se viu obrigado a excluir um dos religiosos, por um grave delito que o mesmo cometera. Em vez de sujeitar-se e aceitar o justo castigo, rebelou-se o religioso contra o superior, cobrindo-o de injúrias, dizendo afinal, que este era o culpado de tudo e por isso era ele quem merecia ser expulso. Teodósio nenhuma resposta deu ao pobre transviado; pelo contrário, ouviu com toda a calma os impropérios do súdito, como se este tivesse toda a razão. Mais depressa do que se esperava, o religioso se converteu e pediu perdão ao superior.
 
Pelo fim da vida, Teodósio sofreu as perseguições do imperador Anastácio, por não ter querido sujeitar-se às insinuações do mesmo, na questão de uma heresia que se tinha levantado, e de que o monarca era o fautor. Teodósio opôs-se energicamente a esta corrente perniciosa, o que lhe importou a expatriação. 
O exílio deu-lhe pouca duração. Anastácio morreu e Teodósio pode voltar, vivendo ainda onze anos.
 
Reflexões:
São Teodósio avisava aos discípulos para que fizessem caridade, lembrando-os da morte. A lembrança da morte é de fato um meio poderoso de abster-nos das práticas do mal e operar o bem. Se fores tentado para o pecado, o pensamento "se pecar e morrer no pecado, estarei perdido para sempre" fará com que oponhas maior resistência à tentação. Se chegaste a pecar, é outra vez a lembrança da morte que te convida a fazer boas obras, obras de penitência, levar com paciência a tua cruz. Lembra-te da morte e jamais pecarás.

sexta-feira, 8 de março de 2024

Santa Genoveva, Virgem

 Festa litúrgica: 03 de janeiro
Santa Genoveva, a gloriosa virgem, célebre por  seus milagres, nasceu em 422,  em Nanterre próximo de Paris. Dos pais, Sebero e Gerôncia, recebeu uma educação esmerada, fundamento sólido de sua futura santidade. Contava  sete ou oito anos, quando  por Nanterre passaram os dois bispos Germano de Auxerre e Lupo de Troyes, em demanda da Inglaterra, país ainda  pagão,  onde iam dedicar-se à obra da propaganda da fé.  Grande  multidão do povo aglomerou-se em redor dos dois  apóstolos, pedindo-lhes sua bênção. Estavam presentes  também Genoveva e  seus pais.  São Germano, por inspiração Divina, conheceu a menina e, dirigindo-se a  Severo e  Gerôncia, disse-lhes:  "Felizes de vós, de possuirdes  esta menina. Ela será grande diante de Deus e  atraídos pela  sua virtude, muitos pecadores abandonarão a  senda do pecado e  seguirão Jesus  Cristo".  A Genoveva, deu  o conselho de  fugir da vaidade do mundo e procurar a felicidade  na prática das virtudes. Em seguida deu-lhe uma medalha de  cobre, que trazia  a  imagem da cruz e disse-lhe:  "Leva esta medalha, como lembrança minha.  Não ponhas nunca ouro, prata ou pedrarias, nem no pescoço, nem nos dedos, porque  se não desprezares o enfeite mundano, jamais  alcançarás a beleza eterna". Genoveva com os  anos  progrediu  em virtude e santidade. Diferente  das outras crianças, fugia dos divertimentos profanos e  das vaidades;  o desejo de  ver, de ser vista, aliás tão próprio de seu sexo, e finalmente  a conveniência  ou familiaridade com pessoas  de  outro sexo, a  isca perniciosa do pecado, eram para Genoveva coisas completamente desconhecidas. Tinha por único prazer  visitar a igreja.  Quando uma vez, em dia de festa, a mãe de Genoveva, indo à Igreja, não quis que a filha  a  acompanhasse, esta  disse, chorando:  "Com a graça de Deus quero cumprir a  palavra que dei a São Germano;  irei à igreja, para merecer a honra que ele me prometeu". Gerôncia,  num acesso de cólera bateu no rosto da filha. Por castigo veio-lhe a cegueira, que durou 21 meses. Passado este tempo recuperou a  vista, lavando os olhos três vezes  com a  água que Genoveva tirara da fonte  e  benzera  com o sinal da cruz. 
 Aos quinze anos, Genoveva  fez o voto de castidade, nas mãos do bispo de Paris, e recebeu o véu  sagrado.  Desde esse dia, penitências e mortificações lhe ocupavam grande parte do tempo, pois muito bem sabia  que  a flor  delicadíssima da  pureza do coração  não pode desenvolver  o seu encanto numa vida ociosa e de comodidades.  Tinha por alimento pão de cevada, por bebida água da fonte, por leito o chão.  Apesar de sua vida santa e  retraída, não logrou fugir da língua  bífida da  calúnia e  maledicência. Genoveva  não se perturbou;  antes se encheu de satisfação por poder sofrer  alguma  coisa pelo nome de Jesus. Passado pelo crisol do sofrimento, ainda mais esplendorosa  lhe brilhava a  santidade.  Deus  envergonhou os  caluniadores pelos  grandes milagres  que fez por intermédio de sua humilde serva.  O fantasma  da  fome, que dizimava a população de Paris, retrocedeu em face das orações de  Santa Genoveva.  Tremiam os parisienses, na expectativa de ver a  cidade  arrasada pelo ímpeto irresistível das hordas de  Átila.  Genoveva  tranqüilizou-os, predizendo uma  mudança nos planos do temido "flagelo de Deus". De fato, Átila viu-se obrigado a  sacrificar grandes vantagens e  desviar as ondas devastadoras  de seu exército. Estes e outros fatos de interesse público fizeram com que todos enxergassem  em Genoveva  uma grande alma, privilegiada  por Deus.  
 O próprio  rei Childerico  tinha-a  em  grande conta. A pedido da Santa, muitas vezes,  anistiou a  réus, condenados  à morte.  Clovis,  à  iniciativa de Genoveva, construiu uma Igreja,  dedicada a São Pedro e  São Paulo. 
 Genoveva  entretinha  uma devoção  terníssima  à  Santíssima  Virgem e  aos  Santos  Martinho e  Dionísio. Mandou  construir  um templo no lugar  onde São Dionísio derramara o sangue, em testemunho da fé.  Genoveva  morreu aos 89 anos.
 A cidade de Paris  venera-a  como  padroeira. Em tempos bem críticos, a capital da França  tem experimentado  a  valiosa proteção de  sua defensora. Em 1130 apareceu uma epidemia  denominada "o fogo", que  transformou a  cidade  em grande hospital e causou muitas mortes. O povo apavorado fez preces  públicas suplicando ao  céu misericórdia. Já existiam aproximadamente 1.400 doentes em Paris, quando a população  resolveu organizar uma grande procissão, na qual foram levadas  as  relíquias de Santa Genoveva. A procissão realizou-se  e a epidemia extinguiu-se  como por encanto. 
As relíquias da  Santa foram  queimadas no ano de  1793 e sua igreja transformada em panteão.  

Reflexões:

Da  vida de Santa Genoveva, donzelas  e moços podem aprender que,  para conservar a inocência, não há meios  mais idôneos que  estes:  a  fuga das ocasiões de pecar, amor ao trabalho,  dedicação à oração e aversão  aos divertimentos profanos.   Jovens que dão toda a  liberdade aos  sentidos, principalmente aos olhos;  jovens  que se sentem  bem  na companhia de  pessoas mundanas;  jovens que, avidamente  se entregam aos  divertimentos, por mais licenciosos e perigosos que como tais  sejam  acoimados;  jovens  que não rezam e  qualificam a oração de ocupação inútil;  se já não perderam  a inocência, não estão longe disto. Oxalá todos  os jovens queiram aceitar o conselho do Espírito Santo que diz: "Meu filho, quando os pecadores te chamarem, não lhes dês ouvido!".  O veneno do pecado está muitas vezes escondido nas coisas  que mais nos agradam, e que adulam os nossos sentidos. Na prática da virtude, porém, estão depositadas a tranqüilidade da consciência, o sossego do espírito, a amizade com Deus e  muitas  vezes  a  saúde do corpo e  a  felicidade  cá na terra. 

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